terça-feira, 23 de abril de 2019

Gritomudonomuro*


por Bernardo Esteves

Um trecho da mureta da via expressa que liga a Zona Sul do Rio de Janeiro à Barra da Tijuca apareceu coberto de inscrições ilegíveis numa manhã do ano passado. Era uma sequência de símbolos, pintados em tinta branca, que ocupava toda a altura do pequeno muro. Estendia-se por mais de 100 metros e tinha quase 400 sinais compridos e estreitos. Vários deles eram repetidos, o que sugeria tratar-se de um alfabeto. As letras tinham ângulos retos e poucas curvas. Algumas lembravam a escrita latina – era possível identificar um I, um X, um Y espelhado, um U de ponta-cabeça. Não havia espaço que delimitasse as palavras. Se aquilo fosse mesmo uma mensagem, era incompreensível.

Inscrições semelhantes haviam sido deixadas em muros e viadutos da Gávea, da Lagoa, do Leblon e bairros adjacentes. Há mensagens escritas no alfabeto enigmático num acesso ao túnel Rebouças, no muro de uma escola e na frente do Jardim Botânico. A meio caminho entre o grafite e a pichação, os escritos costumam ficar na parte de cima de muros altos e outros lugares improváveis. Com frequência, são associados a uma figura humana longilínea e estilizada, com os braços e pernas finos e as costelas realçadas.

A autoria das inscrições foi reivindicada pela primeira vez no início de 2011. Numa reportagem da revista dominical d’O Globo, a artista plástica carioca Joana César contou que era ela quem espalhava as mensagens pela cidade. Estavam escritas num código que criara mais de uma década antes, para preservar seus segredos de pré-adolescente, que anotava numa agenda. Acrescentou uma revelação apimentada: algumas inscrições contavam suas fantasias eróticas. Sem saber, os cariocas conviviam havia anos com relatos íntimos, escritos em letras garrafais na cara de todos.

Joana Coelho Lenz César tem 37 anos. É bronzeada, tem os cabelos curtos, olhos castanhos e piercing no nariz. Foi criada num sítio, em Jacarepaguá, com acesso ao ateliê e ao material da mãe, Tereza Coelho, também artista plástica. Ela pensou em ser escritora e produziu um número considerável de contos e esboços de um romance. Como tinha dificuldade em mostrar o que fazia, destruiu boa parte dos escritos. Mas aproveitou muitos deles como suporte para pinturas e colagens.

Ainda acha incrível que alguém torne públicos uma tela que pintou ou um texto que escreveu. “Como é que o cara vai lá e mostra, na cara dura?”, perguntou durante uma conversa num fim de tarde. “Que coragem”, completou, com uma expressão de perplexidade. Joana César marcou a entrevista no café do Parque Lage, em cuja Escola de Artes Visuais ela estudou. Vestia camiseta branca sem manga salpicada de manchas de tinta.

Um traço acentuado de sua obra é a obsessão com o ocultamento. Muitos de seus trabalhos foram cobertos de tinta tão logo concluídos. Num pedaço de parede de 5 por 3 metros, no ateliê que divide com a mãe, Joana pintou e cobriu a superfície sucessivas vezes. Entre uma camada e outra, escondia objetos: folhetos de mãe de santo trazidos da rua, bolsas que ela mesma fizera, peças de lingerie. A parede ganhou dois palmos de camadas e depois foi desmontada. “Descobri que tinha mais tesão em cobrir do que em pintar”, explicou. “Escrevia por toda a parede, muito solta, sabendo que teria depois a sensação maravilhosa de cobrir tudo aquilo.”

Os trabalhos no ateliê, contudo, lhe deram vontade de ir para a rua e mostrar seus textos. Mas não venceu a timidez: preferiu se expor de modo incompreensível e apócrifo, recorrendo ao alfabeto secreto que concebera na puberdade. Aos 12 anos, Joana se apaixonara por um amigo do irmão mais velho, de quem escondeu o sentimento. Atribuiu um símbolo a cada letra do alfabeto e passou a escrever suas confissões em segurança. Usou o idioma secreto por dois ou três anos. Aí perdeu interesse e abandonou o código.

Quando resgatou o alfabeto, não teve dificuldade para se lembrar das letras. Não tardou a recuperar a fluidez da escrita, como fez questão de demonstrar num pedaço de guardanapo. A essência do abecedário permaneceu inalterada na nova encarnação. As letras só ficaram um pouco mais estreitas e alongadas, por influência dos pichadores de São Paulo. O estilo pode explicar a semelhança de alguns sinais com as letras runas, alfabeto usado pelos povos do norte da Europa até o início da Idade Média. Joana César só soube da existência das runas quando um passante que a viu pintando assinalou a coincidência.

Começou pintando inscrições pequenas. À medida que ganhava confiança, aumentou a frequência das saídas para escrever os relatos cifrados. Joana produz suas próprias tintas. Mistura pigmento em pó, cola e água na proporção adequada à superfície que escolhe. Sai para pintar de carro ou bicicleta, e leva galões, rolos e cabos extensores de tamanhos variados. Hoje, prefere ficar nas proximidades da sua casa, na Gávea, “porque sou mulher e pinto sozinha”.

Desde que teve um filho, há três anos, parou de pintar à noite. Já foi detida três vezes. Numa delas, foi pega pichando na Barra. O acaso a levou à presença do delegado – que era justamente o amigo do irmão por quem se apaixonara, o motivador do seu alfabeto. Foi libertada, mas não lhe contou do seu amor adolescente nem revelou o conteúdo das mensagens.

Houve um almoço de família no domingo em que foi publicada a reportagem sobre as inscrições de Joana César. Sua avó lhe disse que ficara consternada com o conteúdo das mensagens. A artista admitiu que fazia relatos libidinosos. “Tem mesmo umas baixarias”, disse-me. Mas frisou que seus escritos não se limitam a isso e negou com energia que seja pornógrafa. Explicou que eles são parte de um conjunto de relatos de desejos, angústias, frustrações.

Ao lado de um ponto de ônibus da rua Marquês de São Vicente, ela deixou no chão um recado para o pai, hoje quase apagado pelos passantes. “Escrevi um monte sobre ele, falei mal à beça”, contou. “Foram duas madrugadas pintando, foi excelente para mim.” Para a artista, os muros do Rio funcionam como um enorme divã: “A rua me ajudou a resolver várias questões relacionadas com a minha infância, com a dificuldade de mostrar o que eu fazia.”

Joana César jamais revelou a chave para decifrar seu código. Adolescente isolada, não usou o alfabeto secreto para se comunicar com amigas. Valeu-se dele apenas para cifrar as anotações que fazia para si mesma e hoje espalha pela cidade. Era a única a entender o alfabeto com o qual escrevia suas confissões.

Paulo Orenstein, um rapaz de 22 anos, loiro e de olhos azuis, se formou há dois meses em economia pela Pontifícia Universidade Católica, a PUC do Rio. Mas ele gosta mesmo é de matemática. Descobriu isso no meio do curso e começou a seguir disciplinas de pós-graduação na área. Antes de se formar, já tinha feito um ano de créditos para o mestrado.

No fim do ano passado, foi admitido no concorrido processo de seleção do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada. Abriu mão da vaga para permanecer na sua universidade de origem – escolha que muitos matemáticos considerarão herética devido à proeminência do Instituto. Explicou que, entre outros motivos, optara pela PUC porque o currículo era mais flexível.

Orenstein deve muito do seu fascínio pela matemática a Carlos Tomei, que lhe deu aulas na graduação e vai orientá-lo no mestrado. Professor da PUC desde 1984, Tomei é um homem cativante, de barba grisalha e sobrancelhas arqueadas. Quando saía para almoçar pela portaria principal do campus da universidade, dava com uma mureta na qual Joana César pintara inscrições. Nunca lhes deu atenção. Até que soube que se tratava de uma mensagem em código.

Em novembro de 2008, Persi Diaconis, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, publicou um artigo no qual discutiu o uso de simulações computacionais para resolver problemas complexos. Na introdução, Diaconis contou como elas foram usadas para decifrar mensagens em código trocadas por prisioneiros da Califórnia e interceptadas pela polícia. Onde métodos corriqueiros haviam falhado, os algoritmos quebraram a cifra dos detentos, que misturava trechos em inglês, espanhol e gíria da prisão.

Ao saber que as inscrições eram textos cifrados, Carlos Tomei lembrou-se do artigo de Diaconis. E se indagou se a mesma estratégia não poderia ser usada para quebrar o código nos muros cariocas. Pensou logo em Paulo Orenstein e Juliana Freire, uma professora de 31 anos, de cabelos castanhos longos e lisos, de quem ele também havia sido orientador. De volta ao Brasil, depois de um pós-doutorado na Universidade de Nova York, Juliana Freire foi contratada pelo Departamento de Matemática da PUC. Carlos Tomei lançou o desafio à dupla: “Por que vocês não tentam usar o mesmo algoritmo para ver o que ela está escrevendo?”

Em algumas áreas da matemática, saber escrever as instruções para que computadores destrinchem problemas impossíveis de serem resolvidos manualmente é uma habilidade quase tão importante quanto fazer as operações básicas. Como Orenstein queria aprender a programar, entusiasmou-se em decifrar os símbolos misteriosos que via numa escola quando corria na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Juliana Freire também topou o repto. Ela e Orenstein aceitaram uma tarefa semelhante à do sacerdote asteca Tzinacán. Num relato publicado na Argentina, em 1949, o mago contou que fora encarcerado pelos espanhóis numa prisão escura, no fundo do chão. Na hora sem sombra (o meio-dia), um carcereiro abria uma janela no alto da abóbada e fazia descer água e carne por meio de uma roldana. Só então ele via que a cela era dividida por uma fileira de barras de ferro. O seu companheiro de infortúnio, do outro lado da cadeia, era um jaguar. Sem ter mais o que fazer, passou anos recapitulando na treva tudo o que vira e aprendera.

Um dia, o sacerdote recordou que o seu deus escrevera, no primeiro dia da Criação, uma sentença mágica, capaz de conjurar os infortúnios que ocorreriam no final dos tempos. Tal frase fora composta numa linguagem secreta, de maneira a chegar incólume às mais longínquas gerações, quando um eleito a decifraria. Julgando que o apocalipse estava próximo, o mago dedicou todos os seus dias escuros – e anos, e décadas – a buscar a sentença. “O fato de que uma prisão me rodeasse não me impedia essa esperança”, escreveu. Talvez ele tivesse visto a frase milhares de vezes e só faltasse entendê-la.

A diferença entre os matemáticos e o mago é que os cariocas tinham as sentenças, e o asteca partia do nada. Mas ambos precisariam desvendar uma linguagem ignorada – em um caso, criada pelo deus; no outro, por Joana César.

O sacerdote asteca refletiu que existem na Terra formas ancestrais que poderiam conter uma sentença que perdurasse por milênios: uma montanha, um rio, um império, a configuração dos astros. Mas, no decorrer do tempo, tudo isso caduca. A montanha se aplaina, o rio desvia o curso, os impérios decaem, até no firmamento há mudança. Aí se lembrou de que o jaguar era um dos atributos do seu deus. Na Criação, pensou, a divindade escrevera a sentença no dorso do animal, que se reproduziu ao longo dos séculos em canaviais e cavernas. Nas manchas do bicho à sua frente, que ele via por instantes apenas uma vez por dia, estava a mensagem. Sua busca era no fundo idêntica à de Orenstein e Juliana Freire: achar sentido num idioma desconhecido – a pelagem da fera; os signos de Joana.

A dupla de matemáticos tinha pouco com que começar. Não havia pistas sobre o idioma das inscrições. Cada símbolo podia representar uma letra, quiçá uma sílaba. Podia haver um sinal para representar o espaço entre as palavras, já que as letras eram escritas de forma contínua.

Como Joana César criara o alfabeto aos 12 anos, ponderaram, não devia ser um código muito complexo. Uma busca na internet levou Orenstein a um blog de cultura. Vendo fotos de Joana pintando um viaduto, concluiu que ela escrevia da esquerda para a direita. No texto, ela deu uma pista sobre a natureza do alfabeto: “A única coisa que digo é que todas as letras estão dentro da própria letra.” E deu um único exemplo, mostrando como um P estilizado dava origem ao símbolo que o representava. Restava descobrir as outras 25 letras.

Se a hipótese dos dois matemáticos estivesse correta, o alfabeto da artista seria uma cifra de substituição: o sistema em que cada símbolo corresponde a uma letra do alfabeto, um código clássico que é usado pelo menos desde a Roma antiga. Júlio César se comunicava com seus generais por meio de uma cifra de substituição que hoje leva seu nome.

O uso dessa forma de cifra foi seguro até o século IX, quando o matemático árabe Al-Kindi, num marco inaugural da criptoanálise, descreveu um método capaz de quebrá-la. Al-Kindi mostrou que a frequência com que ocorrem os símbolos de uma mensagem cifrada permite apontar seus correspondentes no alfabeto de origem. Se a mensagem original estiver em português, por exemplo, é grande a chance de que os sinais mais frequentes correspondam às letras mais comuns no idioma luso – A, E e O.

A análise de frequência é até hoje o método fundamental para quebrar cifras clássicas. Foi graças a ela que matemáticos decifraram o código dos prisioneiros da Califórnia. Lá, porém, não bastou comparar a constância da ocorrência de cada letra, provavelmente porque os prisioneiros escreviam em mais de uma língua. A cifra só foi quebrada quando se comparou a frequência com a de pares de letras. Foi esse o caminho que Paulo Orenstein e Juliana Freire trilharam.

Supondo-se que Joana César escrevera as mensagens em português, era preciso comparar a distribuição dos símbolos nos muros com a frequência dos pares de letras no idioma. Executar a tarefa manualmente seria demorado e trabalhoso. Um computador, ao contrário, poderia resolvê-la com grande rapidez e sem os erros que a resolução manual acarretaria. Mas era necessário ensinar o computador a fazer isso. A tarefa de Orenstein e Juliana Freire consistiu em escrever as instruções – ou o algoritmo, como se diz em computação – para que a máquina enfrentasse o problema.

Usando uma linguagem de programação chamada C++, eles ensinaram o computador a testar milhares de soluções possíveis para o código de Joana e a compará-las com a frequência dos pares de letras em português. Ao final, avaliaram, chegariam à combinação que melhor correspondia à distribuição das letras na língua portuguesa.

Precisavam antes determinar quais são os pares de letras mais frequentes no idioma. Para isso, era preciso analisar um texto extenso e representativo do português brasileiro. Orenstein pensou no verbete “Brasil”, um dos mais longos da Wikipédia lusófona. Mas preferiu escolher um texto literário, por achar que estaria mais próximo do registro lírico que Joana César deveria ter usado nas mensagens. Escolheu Dom Casmurro. A análise do romance de Machado de Assis revelou que os pares de letras mais frequentes eram AS, RA e OT.

Era chegada a hora de testar o algoritmo. Primeiro, aplicaram um texto que eles mesmos embaralharam com um código que conheciam de antemão. Funcionou: o programa conseguiu decifrar a mensagem. Podiam finalmente pôr à prova os textos de Joana. Orenstein coletou algumas frases cifradas da artista para alimentar o algoritmo. Quando rodou novamente o programa, obteve uma resposta frustrante. “Não chegamos nem perto de conseguir ler”, contou. Ao ver o resultado, Juliana Freire duvidou que as inscrições fizessem sentido. “Aquilo é só bobagem, são letras aleatórias”, disse ao aluno.

O ceticismo da professora atiçou Orenstein. Achava que o algoritmo decifraria os escritos se coletasse um volume maior de texto. De acordo com a literatura técnica, 1 500 caracteres de texto cifrado eram a amostra mínima para quebrar um código com segurança. Era preciso voltar às ruas e registrar mais inscrições.

Depois de um levantamento feito com a ajuda de parentes e amigos, Orenstein percorreu o Rio durante três tardes e fotografou todas as mensagens cifradas de que obteve notícia. Depois, passou um fim de semana anotando manualmente as inscrições. Tinha compilado 1 692 caracteres do alfabeto em cinco folhas quadriculadas. O trabalho braçal não terminou aí: atribuiu aleatoriamente uma letra do alfabeto a cada símbolo usado pela artista, para que o computador pudesse processá-los.

Rodou de novo o algoritmo e teve outra decepção: mais uma vez, a resposta era incompreensível. Também Tzinacán enfrentou enormes dificuldades para achar sentido na pelagem do jaguar. “Não vou falar das fadigas do meu trabalho”, escreveu. “Mais de uma vez gritei para a abóbada que era impossível decifrar aquele texto.” Mas perseverou.

Orenstein, igualmente, não esmoreceu. Numa troca de e-mails com Juliana Freire, discutiu ideias para refinar o algoritmo que haviam escrito. Decidiram modificar algumas coisas do programa para fazer uma última tentativa. Abandonaram, por exemplo, a hipótese de que haveria um símbolo representando o espaço entre as palavras e deixaram de contar letras acentuadas como caracteres distintos.

Orenstein fez as correções numa noite chuvosa de outubro, no quarto do apartamento em que mora com os pais, no Jardim Botânico. Eram quatro da manhã quando terminou os ajustes e rodou o programa. O resultado que recebeu minutos depois parecia uma nova sequência ininteligível. O estudante rodou o programa várias vezes, recebendo a mesma resposta, uma algaravia de letras. Intrigado, resolveu examiná-la com mais atenção.

A resposta consistia num grande bloco de texto sem espaços entre os vocábulos, como um diagrama de caça-palavras. Seu início era uma sequência sem nexo:

ITRAGUEXOFNJFNJDVQMT 

Na segunda linha, alguns trechos pareciam fazer sentido, como:

nimvumapesoadesacidademaluca

Mais adiante, Orenstein identificou uma expressão:

VAMILIADEPORCOSFICIADOS 

Imaginou que talvez o programa tivesse se contentado com um resultado que trocava o F pelo V. Por fim, notou uma passagem que não poderia ser fruto do acaso:

ASTRONAUTADOTADODEUMAPICAGIGANTESCO

Orenstein constatou a ocorrência reiterada de uma palavra que desconhecia: RAGUEZO. Jogou o termo na internet e descobriu que era o nome do boneco de costelas aparentes que Joana César desenhava pela cidade. Achou também uma galeria de fotos do personagem num repositório de imagens. A titular da conta se identificava como IT: RAGUEZO: NHVMIDFOMT. Era uma sequência parecida com as letras da resposta que o algoritmo lhe devolvera. Não tinha como estar errado.

Excitado por estar perto da resposta, começou a fazer uma limpeza manual do texto, de modo a incluir espaços entre as palavras e corrigir erros de ortografia que poderiam ter surgido em qualquer etapa da cadeia, da escrita por Joana César à transcrição e digitação feita por ele. Notou que tratara os símbolos usados para as letras O e Q como se fossem um único sinal. Concluiu também que a artista usava um sinal gráfico para dobrar a letra anterior.

Ao final, Orenstein tinha um texto razoavelmente limpo. Ainda havia um volume considerável de ruído, mas longos trechos legíveis se destacavam entre letras desconexas.

Num trecho da mureta da via expressa que os matemáticos da PUC viam na saída do campus, por exemplo, Joana César relatara a perda da virgindade. “Não imaginava o tamanho da dor que esse sentimento de ser não mais uma garotinha”, escrevera. A menção ao astronauta bem-dotado, num muro nas imediações da Lagoa, era seguida por uma sucessão de palavras que não chegavam a formar uma frase, mas guardavam afinidade: VIRGEM, SANTA, PIRANHA, MISTÉRIO, MÃE.

Os relatos eróticos eram de fato minoritários. Na borda de um viaduto, Joana César deixou um recado para um grupo de grafiteiros cariocas. Num desenho, Raguezo parecia abraçar a palavra RIVOTRIL. O personagem foi sujeito de uma frase pintada numa mureta: “Raguezo significa quase um filho pequeno, precisando dos meus cuidados de mãe.” Noutra inscrição, ela manifestou um receio que mexeu com os brios do estudante: “Lá sei que tem gente tentando entender meu misterioso alfabeto.”

Orenstein se lembrou da euforia que sentiu quando teve certeza de que quebrara o código – e de como sua agitação contrastava com o dia que começava lá fora. “Eram seis da manhã, minha mãe estava acordando para ir trabalhar e achou que eu fosse um maluco completo”, contou. “Foi como o final de um livro de mistério. Só não foi um momento de eureca porque eu estava de roupa.”

No dia seguinte, contou a novidade a Juliana Freire. Apareceu ao final de uma aula, trazendo as folhas com os textos traduzidos e o alfabeto decifrado. A professora se entusiasmou. “Eu estava plenamente convencida de que aquilo era lixo, porque a gente tinha feito um grande esforço e não tinha encontrado nada”, disse ela. “Mas não tem importância eu achar que não tem nada se ele provar que tem. Essa é a graça da matemática.”

Ele foi depois ao gabinete de Carlos Tomei, que não estava. Deixou-lhe um recado no quadro – com o alfabeto de Joana César. Tomei entendeu assim que entrou. “Estava mais do que claro”, comentou. “Ele foi elegante.”

Tzinacán também terminou por encontrar o significado das manchas amareladas do jaguar e o descreveu assim: “É uma fórmula de catorze palavras casuais (que parecem casuais) e me bastaria dizê-la em voz alta para ser todo-poderoso. Bastaria dizê-la para abolir esta prisão de pedra, para que o dia entrasse em minha noite, para ser jovem, para ser imortal.”

O conteúdo das mensagens deixadas por Joana César era o que menos interessava aos matemáticos. Quando lhes perguntei quais eram, afinal, as fantasias da artista plástica, não souberam responder sem consultar a transcrição. Não haviam guardado detalhes das mensagens. “Como matemáticos, era o código que queríamos resolver”, justificou o rapaz.

Em meados do século XX, os matemáticos começaram a se destacar nas equipes de quebra de códigos, eclipsando linguistas e outros especialistas. À medida que aumentava a complexidade das cifras, o raciocínio abstrato e o domínio da teoria de números tornaram-se pré-requisitos para a sua resolução. A quebra do sistema de cifragem usado pela Alemanha nazista – as máquinas Enigma – foi obra de matemáticos: primeiro Marian Rejewski, na Polônia, e depois o time que tinha o inglês Alan Turing, na Inglaterra. A descoberta é considerada decisiva para a virada em favor dos aliados na Segunda Guerra Mundial.

Quebrar um código como o de Joana César não é um marco na criptoanálise. Por se tratar de uma cifra que usa um mesmo sistema de sinais para codificar cada letra da mensagem, ela é vulnerável à análise de frequência. A quebra manual de códigos requer sobretudo tempo, além de paciência e perseverança, mas está ao alcance de criptoanalistas empenhados – foi assim que eles procederam até o surgimento dos computadores.

Ter decifrado o alfabeto de Joana César tampouco terá grande importância acadêmica para os dois matemáticos. Mas Orenstein considera que aprendeu a programar de forma mais criativa do que conseguiria resolvendo listas de exercícios. A quebra do código foi o maior desafio que resolveu. A experiência representou para ele a renovação de seus laços com a matemática.

Orenstein talvez passe a vida perseguindo o mesmo êxtase que experimentou naquele começo de manhã, quando enxergou sentido num emaranhado de letras. O sacerdote Tzinacán também ficou eufórico com a quebra do código do jaguar. “Ó felicidade de entender, maior do que a de imaginar ou a de sentir!”, exclamou.

“Foi a primeira vez que consegui fazer algo com matemática que teve impacto na vida real e que ninguém mais conseguiu”, me disse Orenstein. “Esse é um problema que não dá para resolver sem matemática.”

Reforçar essa ligação com o mundo é a maior lição que Carlos Tomei enxerga no episódio. “Foi uma oportunidade maravilhosa de dizer que, quando sabe matemática, você volta para o mundo e consegue ver outras coisas”, disse.

Orenstein e Juliana Freire não tinham a mesma opinião sobre o que fazer com o código que quebraram. A professora não via maiores problemas em revelá-lo. O estudante, um tímido, preferia guardá-lo em sigilo – eram coisas muito pessoais. “Ela quer gritar para o mundo, mas não quer ser ouvida”, disse ele. “É um grito mudo.”

A mãe de Orenstein é amiga de uma prima de Joana César. Num dia de novembro, o acaso interferiu novamente. Viram-se diante de uma das inscrições da artista. Falaram quase em uníssono: “Quem pinta com esse alfabeto é uma prima minha”, disse uma; “Meu filho conseguiu desvendar esse código”, atalhou a outra. A mãe voltou para casa levando o número de telefone da artista.

A princípio, o matemático não queria procurar a artista. No que dependesse dele, Joana César nem saberia que seu código fora quebrado. Mas a coincidência o fez mudar de ideia. Ligou para a artista e ela ficou curiosa em saber como sua escrita fora desembaralhada. A receptividade surpreendeu Orenstein, que esperava uma atitude hostil. O matemático teve a impressão de que a artista se retraiu quando ele demonstrou que havia mesmo quebrado a cifra. Combinaram um encontro, mas Joana o cancelou na véspera. Ameaçaram remarcá-lo, hesitaram e a conversa não foi adiante.

Joana César disse ter sido tomada por um sentimento ambíguo, entre a curiosidade e a apreensão, quando soube do feito dos matemáticos. Estava simultaneamente entusiasmada e envergonhada. Não gostaria de ver seu código revelado na internet.

Só no dia em que nos encontramos no Parque Lage, em janeiro, a artista parece ter-se dado conta de que suas mensagens tinham sido lidas. Quando mencionei o astronauta bem-dotado, interrompeu a frase, levou a mão à boca e riu. Ao saber que os matemáticos haviam identificado o sinal que dobra a letra anterior, reagiu com admiração: “Até isso eles descobriram? Cretinos!”

Joana disse que cogitou voltar às ruas e cobrir de tinta todas as inscrições. “Não tenho nenhum problema em apagar as coisas, pelo contrário, é um alívio, sempre foi”, disse. Ela falou com mais desenvoltura sobre o alfabeto quando soube que Orenstein não divulgaria o que descobrira. E concordou em encontrar o matemático.

Como Orenstein, o sacerdote asteca não revelou o conteúdo da sentença que decodificou: “Quarenta sílabas, catorze palavras, e eu, Tzinacán, regeria as terras que Montezuma regeu. Mas eu sei que nunca direi aquelas palavras, porque já não me lembro de Tzinacán. Que morra comigo o mistério que está escrito nos tigres.” O mago nunca existiu na vida real. Ele é o personagem principal de “A escrita do deus”, conto fantástico de Jorge Luis Borges que está no livro O Aleph.

Paulo Orenstein chegou antes da hora marcada ao bar escolhido por Joana César na Gávea. Tirou seu bloco de folhas quadriculadas e começou a trabalhar num problema. A artista chegou pouco depois das nove, toda vestida de preto e com uma boina verde. O rapaz se levantou e ficaram indecisos sobre como se cumprimentariam – foram dois beijos rápidos e nervosos. Sem jeito, ele corou por alguns instantes.

Joana César parecia insegura. Assim que se sentou, esfregava as mãos sem parar. Ficou mais à vontade quando desenrolou sobre a mesa uma grande folha em branco que trouxera. Ao longo da noite, usou-a para fazer inscrições em seu alfabeto e desenhar Raguezo com um pincel atômico. Ela tomou refrigerante zero, e ele, água.

Orenstein mostrou-lhe as folhas de papel quadriculado que usara na solução do problema, com a transcrição dos sinais, o primeiro chute e o resultado, já com as correções manuais e a indicação de espaços. Ao final, uma folha com o alfabeto de Joana e o latino dispostos em duas colunas. A artista sorria boquiaberta enquanto examinava as folhas.

Ele levou algumas fotos de inscrições que haviam lhe intrigado. Queria saber de Joana se havia explicação para as letras sem nexo e os longos trechos ilegíveis – achava espantoso que o algoritmo tivesse sido capaz de resolver o problema apesar de tanto ruído.

Joana explicou que muitas vezes se deixava guiar pela estética. “Estou escrevendo algo que faz sentido e de repente começo a viajar na forma”, explicou. Desenhou um símbolo que aparece de vez em quando e que não quer dizer nada. Admitiu que gosta de determinados símbolos e às vezes repete várias palavras com as letras preferidas, como VIRGIN, só pelo prazer de escrever.

Joana revelou o sentido de sua assinatura. IT é o nome com que é conhecida “na rua”. Contou como surgiu Raguezo, uma criatura sofrida e solitária – no fundo, uma alegoria dela mesma. E o enigmático aposto NHVMIDFOMT reúne as iniciais de “nenhum homem vai me impedir de fazer o meu trabalho”.

Orenstein repetiu que achava as inscrições muito bonitas. Contou que cogitara estudar desenho industrial. “Queria ter sido artista,” disse. Joana César lembrou o dia em que um bêbado praticamente saiu lendo seus textos depois de ela lhe dar algumas dicas. E disse ao matemático: “Se o seu olhar fosse completamente livre, talvez você conseguisse entender o alfabeto sem a matemática.”

* - artigo publicado online na revista Piaui em fevereiro de 2012

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